“Pandemias” no desporto


Treino atletas há mais de 25 anos, motivado sempre pelo que de mais importante o desporto nos pode dar, a capacidade de mudar para melhor! O desporto enquanto escola de vida e de valores permitiu-me trabalhar com jovens com comportamentos desviantes, com toxicodependentes, com pessoas com problemas de saúde ou simplesmente jovens que precisavam de uma actividade que lhes estimulasse estilos de vida saudáveis. Se pensarmos na formação de jovens, o desporto ocupa um papel insubstituível e o mais completo de todos. Corpo e mente, valores e ética, tudo é trabalhado com mestria através da prática desportiva, das suas regras, dos relacionamentos humanos e da forma como um jovem aprende a lidar com o seu corpo, com as suas emoções, com os seus pontos fortes e com as suas fraquezas. Arrisco-me a dizer que nenhuma actividade pode ser tão enriquecedora, completa e eficaz. 

Durante mais de 4 décadas, fui-me habituando à ideia de que o desporto não tem os apoios que merece ter, porque globalmente não temos formação para entender o seu impacto e alcance e porque os efeitos não são facilmente mensuráveis em relatórios de desenvolvimento de um país. Pior ainda, não geram riqueza, porque a ética, os valores e o impacto do desporto na saúde e na rentabilidade profissional de jovens e adultos não é nada fácil de medir. Pode-se quantificar números de estádios, de pavilhões ou piscinas e com isso mostrarmos obra feita, mas dificilmente podemos mostrar a evolução na formação ética, social e pessoal de jovens que, através do desporto, alcançam desempenhos notáveis mas quase nunca atribuídos às aprendizagens provenientes da prática desportiva. 

O mais grave de todo este processo é que os treinadores são invariavelmente o elo mais fraco. Sem vislumbrarem carreiras profissionais minimamente estáveis agarram-se a um amadorismo voluntário notável, mas limitado a todos os níveis. Limitado na formação, nos apoios que podem prestar aos jovens, e nos meios e ferramentas que dispõem. São, ainda assim, os verdadeiros motores de um desenvolvimento desportivo lento e penoso sujeito a uma precariedade constrangedora. Nenhum de nós, admite entrar num hospital, sem os mínimos recursos físicos para a realização de exames que nos garantam a melhor prescrição médica, mas toleramos sem dificuldade a ausência completa de meios no apoio a uma prática desportiva de jovens que pode mudar de forma inequívoca a sua vida e saúde para níveis incomparavelmente melhores. Para complementar esta situação, o que vamos assistindo nos últimos anos é a criação de mais obrigações e a continuada ausência de estímulos. Quando se esperaria que, nos últimos anos, se canalizassem estímulos directos para os treinadores através de federações ou do estado português, assistimos, pelo contrário, a um crescimento de obrigações, de regulamentações e de despesas para os treinadores nomeadamente com a sua formação. E assistimos a um crescimento de formações (porque interessa…) e a menos aprendizagem técnica específica e aplicável como existiu no passado. Passou a interessar mais o cumprimento de regras do que a valorização profissional efectiva. Os meios disponíveis e os apoios aos treinadores são cada vez mais escassos e desmotivadores.

Os tempos de pandemia que vivemos, exigem ainda mais reflexão em torno destes problemas. Um dos alicerces mais importante de motivação dos jovens é a competição. A competição que é agora mais ausente, menos festiva, menos capaz de motivar os jovens. Agora, mais do que nunca, o papel do treinador é ainda mais importante. É ele que será o elo de ligação directa com o praticante e o único capaz de manter jovens motivados e empenhados, que transmite confiança aos pais e que motiva os atletas a manterem rotinas de treino. No momento que vivemos atualmente no desporto, a maior “pandemia” de todas continua a ser a falta de valorização do papel do treinador. É no treinador que deveriam estar a centrar todas as medidas de apoio ao desporto em tempos de pandemia, enquanto se procuram estratégias que permitam que a competição volte ao normal, mesmo não sabendo quantos meses ou anos isso poderá demorar. Se o maior alicerce de todos no desporto, sempre foi o treinador, nos dias de hoje pode mesmo ser a única esperança para oferecer aos jovens as rotinas de treino e de preparação física e mental de um país que deve querer acompanhar uma recuperação económica importante, com políticas que se centrem na formação, saúde e bem estar dos jovens. O treinador que está sempre em ultimo lugar nos apoios e nas medidas de desenvolvimento desportivo. Desengane-se quem acha que a economia será o único dos riscos que enfrentamos para o futuro…

Há 10 anos que defendo que devíamos mudar muita coisa nos modelos de gestão do atletismo português. Tive oportunidade de o referir a várias pessoas em conversas mais ou menos informais, mas nunca fui levado a sério. Também não o esperava… Pensar em grandes mudanças provoca sempre desconforto nas pessoas e nas organizações que ao longo dos anos se foram estruturando em modelos que, podiam fazer sentido num contexto, mas que com o tempo deviam ser questionadas. Não sei qual a dotação orçamental das associações regionais de atletismo por todo o país, mas arrisco-me a escrever que muito do dinheiro que anualmente é entregue pelo estado à modalidade, se perde em estruturas organizativas dispendiosas e pouco funcionais. 

É possível perceber a importância de uma associação de atletismo por distrito, na década de 70/80. Não tínhamos telemóveis, a internet era obsoleta, os sistemas informáticos rudimentares e dispendiosos e vivíamos dependentes de contactos de telefone fixo e de um fax que permitia a troca de informações entre a estrutura federativa, clubes, poder local e associações regionais. A realidade que vivemos hoje é muito diferente. As comunicações são mais ágeis, mais rápidas, mais eficazes. Na palma da mão, um smartphone permite-nos fazer muito mais do que nessa altura se fazia numa sede. Criar uma rede de técnicos por distrito, com um caderno de encargos bem definido, com agilidade e meios de comunicação eficazes, eliminar sedes de associações e as despesas associadas e desenvolver parcerias com organizadores de eventos que diminuam a necessidade das associações investirem continuamente verbas elevadas em estruturas de organização de competições, poderiam constituir medidas eficazes não para diminuir o investimento na modalidade, mas para canalizar investimento para onde ele deve ser feito: treinadores e clubes!

Precisamos de pessoas que pensem que passados todos estes anos, algo deve mudar. As estruturas organizativas têm de ser dinâmicas, suportadas em modelos de gestão eficazes, actuais e tirando proveito de ferramentas cada vez mais acessíveis. É preciso dar uma dimensão de importância cada vez maior aos clubes e treinadores porque são eles que terão a capacidade de fazer a diferença. Nos últimos anos, todos assistimos penosamente a eventos nas pistas de atletismo, com cada vez menos participantes, mas ninguém questiona os modelos de desenvolvimento desportivo da modalidade de forma séria e profunda. Durante anos, enquanto os clubes perdiam treinadores, capacidade financeira e meios, a estrutura federativa e respectivas associações cresciam em dimensão e passámos a ter custos maiores ou idênticos para cada vez menos atletas e treinadores. Alguma coisa não pode estar bem e essa reflexão deve ser feita.

Vejo na classe de treinadores mais experientes, um certo desacreditar e um progressivo abandono. Nos mais jovens, vejo a perda de perspectivas, onde só lhes pedem para investir na sua formação, para uma carreira profissional pouco estruturada. Jovens que acabam por procurar outros caminhos mais atractivos no desporto do que ponderarem investir tempo e dinheiro em serem treinadores de atletismo…

Os tempos que vivemos são tempos difíceis que se deverão prolongar por um período indefinido, mas longo de mais para ficarmos à espera. Urge mudar mentalidades, agilizar formas de gestão, procurar meios de apoio específicos para quem realmente pode neste momento fazer a diferença junto dos mais jovens. É isto que se devia pedir a quem tutela o desporto e as federações. Precisamos de uma lufada de ar fresco, de inovação, de juventude e de energia que pudesse fazer desta terrível pandemia um período marcante no desporto e em particular no atletismo português. E que de forma assertiva se coloque, de uma vez por todas, o treinador no centro das discussões do que deverão ser as políticas de desenvolvimento desportivo do país.