(N)A medida certa


É de enaltecer o trabalho desenvolvido pela Direção Geral de Saúde e pelo Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável que permitirá limitar a Publicidade dirigida a menores de 16 anos de produtos com elevado teor de sal, açúcar e ácidos gordos saturados ou trans. Entre os produtos, cujo marketing será banido, temos desde os esperados refrigerantes a muitos outros considerados tão “inofensivos” como cereais de pequeno almoço, iogurtes ou leites achocolatados. Este é um esforço inédito e muito relevante num trabalho que tem de ser continuado de redução da taxa de obesidade ou excesso de peso em crianças e jovens e com consequências óbvias na idade adulta. Não será muito claro qual o efeito que esta medida terá, principalmente quando os jovens estão cada vez mais permeáveis a formas de publicidade que vão para além dos espaços mais identificados com a sua faixa etária. Sabemos que pelo menos nas escolas e parques infantis a publicidade a esta listagem de produtos não será permitida e terá multas de 750€ a 45.000€.

Esta importante alteração legislativa fez-me, contudo, lembrar um problema silenciosamente crescente que afeta muitos jovens e não só, praticantes ou não de desporto, onde marcas e produtos utilizam o desporto como um fácil veículo para fazer chegar, em particular aos mais jovens, falsas promessas de rendimento desportivo elevado. E qual de nós não gostaria de ter num comprimido ou numa bebida o segredo do sucesso de uma prática desportiva que apaixonadamente move largos milhares de jovens por todo o país. A lista de produtos disponíveis e agressivamente publicitada é inesgotável… Bebidas repletas de açúcar, multivitamínicos de toda a espécie, produtos para acelerar a recuperação muscular, produtos para fazer diminuir os níveis de gordura, aumentar o volume muscular, ou até repletos de cafeína usada de forma quase indiscriminada e nem sempre muito perceptível por consumidores menos informados. A desinformação nesta área é enorme e naturalmente a publicidade agressiva baseada nos hipotéticos benefícios destes produtos, derruba qualquer esforço sério de informar os praticantes desportivos de que o segredo do seu sucesso, muito pouco ou quase nada passa pela ingestão desses produtos. Nem mesmo de multivitamínicos que na versão do marketing se apresentam para promover um efeito antioxidante do treino, quando o que vão fazer é precisamente estragar os resultados do treino “escondendo” os efeitos que pretendemos que sejam combatidos pela capacidade antioxidante que o nosso corpo promove. Os radicais livres produzidos com o exercício físico são vitais para que o nosso corpo receba sinais que acentuem a capacidade regenerativa. Silenciar estas informações no corpo de um atleta é a médio e longo prazo levá-lo a um pior desempenho desportivo e não o contrário! São muitos os estudos que mostram a inutilidade ou ineficácia, para a quase totalidade dos praticantes desportivos, de uma enorme gama de produtos identificados como importantes para potenciar o rendimento desportivo. Já para não falarmos daqueles que nem sequer treinam diariamente e que querem depois encontrar um milagre dentro de uma cápsula qualquer. Costumo dizer que devemos ver estes produtos para situações de doença (por exemplo ingestão de ferro para atletas com tendência para anemias) ou para situações muito particulares de algum momento de agressão extrema do organismo que não possa ser reposto pela alimentação. A opção certa deverá passar pelos alimentos que têm uma biodisponibilidade insubstituível, permitindo que possamos absorver os nutrientes existentes nos alimentos de forma bem diferente da que nos é oferecida de outras formas. 

Chegamos aqui a um problema de enorme complexidade. É que quando se treinam atletas e particularmente jovens para acreditarem que serão determinados produtos que os levarão aos resultados desportivos de excepção, promovemos também uma enorme deseducação alimentar que com o passar do tempo poderá ter consequências imprevisíveis. Entre os atletas que treino, há anos que lutamos para melhorar a formação de cada um, no sentido de saberem tomar as melhores opções e de evitarem erros grosseiros. O maior e mais difícil trabalho que tive foi no sentido de os fazer não acreditar na aparente facilidade de recorrerem à brutal diversidade de produtos que outros atletas visivelmente tomavam. As quantidades e o nível de investimento de vários atletas nestes produtos é frequentemente inesperada e pode fazer com que jovens praticantes acreditem que se não o fizerem, não terão rendimento desportivo elevado. Opções que evidenciam uma enorme falta de conhecimento e uma falta de educação alimentar assustadora. É enorme a frequência com que jovens nos pedem conselhos sobre os produtos que devem tomar para potenciar o seu rendimento! Até o treino fica completamente secundarizado, pois recebo mais pedidos de conselhos sobre os comprimidos, géis ou pó para batidos que devem ingerir, do que qualquer tipo de informação técnica sobre treino…  Tenho ainda a situação complicada de lhes ter de dizer que os atletas que treino não tomam nada para potenciar rendimento ou recuperação a não ser alimentos e que o fazemos desta forma há muitos anos… Invariavelmente olham-me com desconfiança como se estivesse a esconder algum segredo… E assim invertemos todas as prioridades que deviam estar centradas no que realmente faz melhorar o rendimento desportivo: o treino!

O problema é de informação e de educação. Um dos meus atletas (Rui Pinto), referia algum tempo atrás que o que aprendeu no seu dia a dia, sobre como ter uma alimentação mais equilibrada, levou a que toda a sua família alterasse para melhores hábitos alimentares há muito instalados e nem sempre corretos. O jovem praticante se tiver acesso a uma boa educação alimentar, adquire uma consciência que pode induzir mudanças nos hábitos familiares. Esta deve ser também uma função do desporto que alicerça nos praticantes desportivos peças de conhecimento que mudam famílias, amigos e comunidades. E aqui o desporto funciona como uma ferramenta insubstituível para promover bons hábitos e promover atitudes saudáveis.

O Desporto é por isso acima de tudo um ato educativo em muitas dimensões.  Não podemos esperar que sejam as marcas destes produtos a explicarem que estes não devem ser usados na maioria dos casos. Para as marcas interessam mensagens de “vais atingir mais rapidamente os teus objectivos” ou “fórmula altamente concentrada” ou “produto tecnologicamente avançado”. Não há forma de com estudos científicos fazer entender aos atletas que não é este o caminho, pois o marketing das marcas chega de forma muito mais poderosa do que a leitura científica na área da nutrição desportiva. Com os meus atletas dediquei-me durante estes anos a conversas longas sobre alimentação, acreditando que este é um fator que tem de ser criteriosamente trabalhado quando se pensa em rendimento desportivo. Mas para os jovens, os exemplos que vêm do marketing são os que vão contar nas suas opções. E aqui a responsabilidade dos atletas de melhor nível desportivo nem sempre é a melhor. Vêem-se com frequência atletas que se transformam em promotores de marcas e produtos, federações que as promovem e modalidades que até parecem construir resultados graças a esses produtos. Pouco interessa se os atletas de verdade tomam ou não os produtos que apresentam como os grandes fatores de melhoria de rendimento. O que vai contar é que para os jovens são esses exemplos que lhes entram diariamente pelas redes sociais e pelos media. Será imediata a identificação do jovem com esse produto que pensará ser nas elevadas doses de cafeína, sobredosagem vitamínica e quantidades anormais de açúcar, entre outras substâncias, o segredo do sucesso. Os produtos estão em todos o lado e “rotulados” de saudáveis, nas seções de produtos naturais e dietéticos dos supermercados e até em farmácias. E não me digam que todos esperamos que os jovens e praticantes desportivos sejam capazes de entender que as doses devem ser reduzidas, controladas e avaliadas, porque eles não terão capacidade para o fazerem e porque as mensagens induzem a ideia de que quanto mais melhor… 

O jovem praticante não estará preparado para perceber o que está em jogo e ninguém o defende, pois nem os seus atletas de referência, nem federações, nem o estado enquanto entidade promotora de uma prática desportiva saudável parecem capazes de lhe indicar as práticas mais corretas. Talvez a Direção Geral de Saúde pudesse ter um importante papel neste assunto, mas o sistema desportivo português na sua globalidade não se pode demitir de promover uma prática desportiva tão saudável quanto possível, e de tal forma informada e precisa que não deixe dúvidas ao jovem praticante sobre as opções que este deve tomar. Ou será que o poder económico nos irá manter neste silêncio ensurdecedor durante muitos mais anos?