(des)construir o futuro


Uma das perguntas que já me fizeram por várias vezes é qual o atleta que gostaria de treinar se tivesse oportunidade de escolha. Sempre que penso nisto, começam a saltar nomes como Marta, Armindo, Susana, Isabel, João, Filipe e tantos outros que ao longo das minhas vivências como treinador não consegui por diversos motivos manter numa prática desportiva motivadora para que ainda hoje pudesse estar a tirar o máximo proveito das suas enormes capacidades. Por muito que possamos dar de nós, esbarramos sempre com a incapacidade de lhes proporcionar experiências capazes de os fazer acreditar que o seu esforço vai valer a pena.

Penso que deve ser uma angústia de muitos treinadores, que ano após ano, vão assistindo ao abandono de jovens ou de outros menos jovens, repletos de potencial e que vão desacreditando de uma carreira desportiva. A vida tem muitas vezes de tomar outros rumos e não é nada fácil lutar durante anos, quando nada nem ninguém parece importar-se a não ser o treinador, o atleta e por vezes o clube. A inexistência de meios não permite que se veja o futuro com “um sorriso nos lábios” e para tornar as coisas ainda mais complicadas todas as portas parecem fechar-se mesmo nas necessidades que nos parecem mais simples de concretizar. À excepção de um trabalho meritório de muitos clubes que tentam a todos os custos sobreviverem, o sistema desportivo português parece envelhecido, sem inovação, sem capacidade de trabalho e sem um olhar dirigido para os jovens e para o futuro. Para além destes problemas, o sistema desportivo português está sem capacidade de estimular os muitos jovens que se envolvem com uma prática desportiva regular. Claro que ainda podemos esperar que se consigam organizar uns campeonatos nacionais e se atribuam prémios aos atletas que ao longo de um enorme percurso se confirmem como atletas de nível olímpico (ou muito perto disso). Neste caso temos um sistema desportivo, que basicamente atribui prémios de um percurso de excelência durante o qual apenas treinadores, atletas e clubes se parecem importar. De resto, pouco mais podemos esperar… Ser jovem talentoso não tem importância nenhuma, ser campeão nacional passa ao lado de todo e qualquer sistema de apoio, ter participações internacionais pela seleção dá apenas direito a mais uma competição e não existem respostas favoráveis a necessidades de material desportivo necessário ao treino dos atletas ou procura de soluções para problemas apresentados pelos treinadores e atletas. Ficamos apenas pelo marasmo de regulamentos que justificam que nada se faça, que nada se altere, que tudo fique na mesma…

Temos cada vez mais de ver a formação de atletas para o alto nível, alicerçado no esforço de atletas, treinadores, clubes e pais e todos em conjunto serem criativos, encontrarem os mecanismos de apoio e de desenvolvimento de projetos capazes de motivar os atletas ao longo de períodos de treino superiores a 10 anos. Se tudo correr bem, podemos então pensar que talvez exista um sistema desportivo que ao final de muitos anos seja capaz de lhes dar um prémio pelo trabalho desenvolvido (bolsas!).

O investimento no futuro parece que cabe cada vez menos ao sistema desportivo tal como o conhecemos e parece destinado a empresas, particulares e pais que percebam a importância do desporto de rendimento, os valores em que se alicerça, a relevância social que tem para os mais jovens e o exemplo que transporta para todas as gerações nos valores de ética, do desenvolvimento humano e de uma performance da sociedade em geral que tanto precisa da inspiração vinda do desporto.

Existem muitas situações em que poderíamos “acusar” o sistema desportivo de ser incapaz: falta de organização, pouca noção da realidade do dia a dia, pouco interesse com o que se vai desenvolvendo pelo país ou pouca visão para o futuro. Mas neste caso, o que falamos é apenas de uma constatação: os meios para o desporto em Portugal são claramente irrisórios e por isso as Federações são incapazes de cumprir o seu papel. Se não chegam onde deviam chegar e não são suficientes para se fazerem apostas nos atletas que deviam usufruir desses apoios é porque o sistema tal como existe só será capaz de suportar os que já atingiram sucesso de alto nível. Para os outros, temos de ser capazes de desenvolver projetos arrojados, inspiradores e competentes com o apoio de toda a sociedade de modo a que esses projectos sejam transformadores e dêem o que não existe em Portugal, ou seja, um verdadeiro sistema de apoio aos mais jovens ao longo de um percurso de muitos anos, repleto de “ratoeiras” capazes de promover uma desmotivação que temos teimosamente de contrariar.

Se isso acontecer, e todas as dificuldades se ultrapassarem, no final desse percurso, os atletas poderão usufruir então de um conjunto de regulamentos que lhe atribuirão o “selo de competência” necessário para passarem a usufruir de um sistema de apoio que não passa de um prémio de carreira. Aos treinadores pais e parceiros, competirá a responsabilidade de fazerem apostas determinadas no futuro dos mais jovens e de acreditarem no seu talento proporcionando-lhes os meios que necessitam. A estes compete cada vez mais apostar no futuro dos jovens, sendo verdadeiramente os que arriscam e motivam os jovens para o futuro e ao sistema desportivo nacional, através do apoios olímpicos e federações, atribuir os prémios de carreira (também necessários em especial para prolongar carreiras ao mais alto nível).

Felizmente sinto cada vez mais que existem mais pessoas capazes de desempenhar este papel, rompendo com a inércia e passarem a ser agentes transformadores de dinâmicas sérias, profissionais, competentes e inovadoras. O futuro está aí e todos temos um papel a desempenhar que há muito tem vindo a ser abandonado pelo sistema desportivo português. O momento não pode ser de crítica, mas sim de enfrentar a realidade e de atrair aqueles que acreditam nas capacidades dos jovens e que possam gerar a obtenção de meios que façam crescer projetos, atletas e treinadores disponíveis para serem verdadeiros agentes de mudança.