Renegar o treino


Sempre sonhei com ética no desporto e com atletas que valorizam os adversários sem os quais seriam incapazes de se aperfeiçoarem e de crescerem desportivamente. Sempre sonhei com vitórias que não fossem conseguidas a qualquer custo e que fossem desonestas. Nunca imaginei que algum clube ou federação desportiva fosse capaz de manipular resultados desportivos usando armas como o doping em conjunto com treinadores para se garantirem resultados desportivos. Foi assim que vivi a minha formação desportiva, suportada em ética e valores que ainda hoje fazem parte do meu dia a dia enquanto treinador. Os resultados desportivos e os sonhos dos meus atletas interessam-me muito, mas apenas na ótica de estratégias de treino definidas de forma criteriosa e melhoradas mês após mês, ano após ano…

Contudo, por oposição a estes princípios, o doping é um flagelo preocupante no desporto, da mesma forma que outras diversas formas de criminalidade o são para a sociedade. Não consigo ver o rendimento desportivo suportado na mentira e na tentativa de vencer a qualquer custo, onde não se olham a meios para se atingirem determinados resultados desportivos, destruindo sonhos de um desporto limpo e igual para todos. Não consigo sequer ver qualquer perspectiva de alta tecnologia no apoio ao desporto usando ferramentas da bioquímica para tentar transformar humanos em “máquinas de guerra”.

Desde que me lembro de estar no desporto que os valores sempre estiveram acima de qualquer outro objetivo. A prática desportiva deve ser, antes de tudo, um instrumento de formação, de aperfeiçoamento humano e de construção de valores para a vida. Por muito que me esforce não consigo ver nada de positivo em resultados desportivos adulterados, como se ganhar fosse mais importante que qualquer valor de respeito pelos colegas de competição.

Não posso por isso concordar com quem defende a utilização de substâncias dopantes no desporto. Se fossem permitidas, mesmo sobre determinados limites, seria um exemplo péssimo para os mais jovens e os limites seriam, perigosamente ultrapassados. Qualquer jovem tem de ter o direito de acreditar que poderá ter um excelente rendimento desportivo sem recorrer a drogas ilegais cujos efeitos secundários são bem conhecidos e um atentado à saúde dos desportistas.

Acredito nos efeitos de um processo de treino bem prescrito para melhorar o rendimento desportivo. Assim como num estilo de vida adequado e na utilização de estratégias nutricionais, entre outras, para melhorar a performance. Acreditar nestes pressupostos, leva-nos a investigar e a estudar formas de melhorar o rendimento de atletas, cujos princípios se podem transferir para o dia a dia de milhares de pessoas que podem aprender novas formas de melhorar a sua saúde e bem estar.

Não consigo entender como um atleta se pode orgulhar e consegue conviver com resultados falsos. Resultados que lhe permite evoluções fantásticas e um impacto social crescente, mas suportado numa mentira. Pior do que isso, não consigo imaginar como é que existem treinadores que pensem na melhoria de rendimento dos seus atletas através da mentira do doping. O problema é tão grave que leva a que inúmeros profissionais de saúde (muitos apenas intitulados como tal, mas sem qualquer formação) se envolvam com atletas para lhes potenciarem rendimento desportivo… com uma “ajudinha” extra…

Na antiga Alemanha de Leste, durante as décadas de 70 e 80, a incidência de problemas de saúde muito graves associados a uma prática de doping generalizada levou mesmo a que o Governo Alemão atribuísse uma ajuda superior a 2 milhões de euros para ajudar ex-atletas nas inúmeras despesas de saúde associadas a gravíssimos problemas cardíacos, cancros, problemas ginecológicos, entre outros. De que valeram esses resultados? Dinheiro? Protagonismo? E os atletas, quem se preocupou com eles?

O maior problema é que na falta de uma consciência de valores, existirão treinadores, empresários e profissionais de saúde, que acabam por ter formas fáceis e diretas de ir alterando o pensamento dos atletas: “todos o fazem”; “se queres estar entre os melhores tens de fazer o mesmo que eles”; “isto não te faz mal, porque as doses são pequenas”, entre tantas outras abordagens que têm por objetivo levar o atleta a cometer erros que lhe podem ficar caros no seu futuro desportivo, na sua vida pessoal e na sua saúde!

O rendimento desportivo suportado num trabalho diário sério é algo de fabuloso! Aprende-se todos os dias, com aplicação de cargas de treino, medição dos seus efeitos e combinação com o devido trabalho regenerador. Cairmos na área do doping é renegarmos o treino e a importância de um trabalho sério e organizado. Neste caso, muitas vezes nem é preciso ter-se treinador, pois o efeito das substâncias é superior a qualquer necessidade na gestão adequada de cargas de treino. O que importa é saber-se tomar as necessárias substâncias com a arte e engenho que permita… que não sejam apanhados!

O flagelo do doping não é apenas um atentado à integridade do desporto, mas um problema que está amplamente conectado com várias formas de crime e corrupção. Daí ser tão importante uma criminalização cada vez mais séria dos que vendem e traficam substâncias. Penalizar seriamente os atletas que recorrem a substâncias, de forma cada vez mais grave e duradoira, com atenuantes para quem denuncie os que estiveram ligados ao processo e os convenceram e administraram essas substâncias. Nenhum atleta o faz sozinho e é imoral que sejam apenas os atletas os visados de um processo que terá outros rostos que ficam livres para convencer outros a seguirem o mesmo caminho…

Tal como diversos crimes, o doping existirá sempre, mas precisamos de mais pessoas que dêem a cara, que falem e que se esforcem por reduzir o mais possível o impacto deste flagelo no desporto. É importante que possamos mostrar a prática desportiva de rendimento aos jovens, como um espaço de excelência para a construção de valores de sã competição e não de um espaço em que para ser competitivo tenha de ultrapassar todos os limites e de prejudicar seriamente a sua saúde. E aqui a postura das Federações dirigentes e treinadores tem de ser intransigente… ou não é esta imagem que todos queremos para o desporto?