A adversidade faz campeões


Era jovem, mas lembro-me bem de uma reportagem que mostrava as corredoras bracarenses da altura a treinarem no Estádio 1º de Maio com muito frio e neve. Um dia em que a equipa de futebol não treinou devido às más condições climatéricas. Sameiro Araújo, liderava um grupo de guerreiras como Albertina Machado, Conceição Ferreira ou Manuela Machado. Quem conhece a mulher minhota entende bem o que está por detrás dessa capacidade de trabalho e vontade de superação. É uma espécie de vírus que passa de mães para filhas que as torna particularmente lutadoras perante as adversidades da vida. São valores que se transmitem desde idades muito jovens. Os títulos somados ao longo de anos falam por si e ainda hoje podemos olhar para as referências atuais e perceber porque os destinos da corrida de elite em Portugal, se suportam em nomes como Jéssica Augusto, Dulce Félix, Catarina Ribeiro ou Carla Salomé Rocha… O que as une não é o treino em altitude ou um qualquer “sangue de tartaruga”, mas uma atitude perante a vida que faz com que sejam capazes de ir sempre mais além, nos treinos e na competição.

No final dos campeonatos do mundo de atletismo, Inês Henriques foi peremptória ao dizer ao jornal Público, “O que eu fiz é muito duro, mas o que a minha mãe faz todos os dias é muito mais”. Uma clara alusão ao exemplo de vida de perseverança que herdou, que a fez acreditar e a quem tanto deve. Os grandes feitos, na vida e no desporto, não se constroem no enganador conforto que quase sempre se procura na vida, mas num clima de adversidade que nos faz crescer! Este é um princípio que não escolhe idade ou sexo e Moniz Pereira foi mais um grande exemplo. Treinador exemplarmente dedicado e apaixonado, juntou homens de carácter únicos, nascidos na adversidade e moldados pela vontade de vencer: Fernando Mamede, Carlos Lopes, Irmãos Castro, entre tantos outros.

Estes mundiais de atletismo, permitiram-nos voltar a ver um Nelson Évora, cada vez maior. A idade não parece ser justificação para nada, as dificuldades nos treinos e menores condições de trabalho muito menos e tudo isto depois de ter superado uma das piores lesões que um saltador pode ter! Só o acreditar que iria ser possível voltar a saltar e ultrapassar o processo penoso de recuperação que teve de fazer, faz dele um grande herói! Quantos na situação dele teriam a força física e mental para voltar a acreditar? Que enorme exemplo de vida para todos!

A adversidade pode ser uma incrível ferramenta de aperfeiçoamento humano, na vida e no desporto. O inconformismo faz-nos ir mais longe, trabalhar mais e desenvolver o ambiente físico e psicológico necessário para se ser bem sucedido. A Inês socorreu-se do excepcional exemplo de muitas das nossas mães. Na mãe da Inês, está representado o esforço de mães que ao longo de anos formaram uma geração de pessoas e atletas que acreditaram como nunca nos valores do esforço diário.

Os nossos jovens precisam destes exemplos! Precisam de se inspirar nos valores do trabalho e no acreditar destes atletas. Porque a adversidade já não se sente como antes… E o desporto é provavelmente das poucas “escolas” de valores que se constroem na adversidade. O que me incomoda na RTP é não haver ninguém, na nossa estação pública, que entenda a importância da transmissão destes valores e dos quais estes mundiais de atletismo foram particularmente ricos. Não há milhões que paguem uma sociedade que forma os jovens no sentido de serem mais ativos, mais capazes e que acreditem mais no seu futuro, identificando as melhores ferramentas para serem bem sucedidos.

Num mundo em que o que conta são os milhões de euros, ficamos todos cada vez mais pobres! O dinheiro parece não ser capaz de nos fazer chegar os ensinamentos e crescimento pessoal que nos deu a sorte de ter um Nelson, um Mamede, uma Inês ou um Lopes…