Objetivos?!


Estamos numa fase em que parece que todos se podem tornar campeões! Definir objetivos parece que nunca foi tão fácil, tão imediato e tão visível. Frente a um teclado facilmente depositamos sonhos a que chamamos objetivos e raramente nos apercebemos que a concretização desses sonhos tem um preço a pagar. No desporto, traduzir sonhos espelhados nas redes sociais como se de objetivos se tratassem, significaria muito suor, muita privação e uma dedicação extrema. Mas poucos resistem à tentação de seguir a tendência de se tornarem heróis virtuais, não se apercebendo que o jogo virtual os torna mais distantes do mundo real e daquele que garantem ser o seu grande objetivo. A verdade é que os objetivos mais sérios não se devem levar para as redes sociais. Os objetivos devem ser alimento diário para as dificuldades de cada sessão de treino e por isso mesmo partilhado num grupo de pessoas muito restrito. Viver da partilha de objetivos (posts) e da multiplicação de likes para acontecimentos ainda tão distantes, significa criar a falsa sensação de se ter conseguido algo que ainda praticamente nem se tentou… Perseguir um objetivo sério significa criar um espaço muito circunscrito, capaz de gerar as energias necessárias e bem concentradas para os milhares de treinos que se avizinham. A dispersão por muito atrativa que possa parecer, só levará também a uma dispersão de atenção, que passa a ser contrária à aparente vontade de perseguir objetivos definidos.

Ser atleta com objetivos claros e acerrima vontade de os perseguir, significará um foco permanente no “eu”, uma vez que o aperfeiçoamento exige leituras e conhecimentos só atingíveis quando o atleta olha para dentro de si e identifica sinais só possíveis de percecionar quando o foco está em si mesmo. E claro, referimo-nos no desenvolvimento de um auto-conhecimento e enriquecimento pessoal evitando qualquer tendência por uma personalidade narcisista, bem característica de muitas intervenções nas redes sociais.

Numa recente entrevista na revista, INSIDE running as a lifestyle, Peter Thompson, mostra os cuidados que tem enquanto treinador para diminuir o impacto negativo das redes sociais nos seus corredores. É tremendamente difícil explicar a um jovem que deve perder mais tempo “dentro de si”, interpretando sensações, procurando soluções e preparando-se mentalmente para cada sessão de treino. E que a dispersão mental, nas redes sociais, nas partilhas de muitas vezes falsos objetivos, na procura de likes sem interesse nenhum na sua carreira, que só o irão dispersar do trabalho mental que deve ser feito por si próprio a cada dia.

O mundo vive cada vez mais de ilusões e da necessidade de sucesso fácil e imediato. E é tão mais fácil ter sucesso imediato num mundo virtual, do que somar gotas de suor de trabalho verdadeiro no mundo real, que deve ser, o local de treino, o seu treinador e colegas de treino. Essas são as verdadeiras redes sociais que podem fazer traduzir trabalho em resultados, evitando também o “olhar para os outros”, como se estivesse sempre melhor onde não está, numa insatisfação pouco racional, nada objetiva e seriamente comprometedora de projetos de futuro. Quando se vive num mundo de irrealidades o Facebook trata de nos alimentar a alma e dar-nos a sensação de que está tudo bem! Aqui, até comentários e likes de insucessos rapidamente se traduzem em sensações de sucesso, retirando a necessária insatisfação e vontade de vencer, que carateriza os que realmente entendem a realidade dos seus fracos resultados.

As redes sociais dão aos jovens a criação de estados de satisfação constantes por resultados fracos e muito pouca noção de exigência e da distância real  a que cada praticante está dos seus objetivos. Num mundo de likes e de feedbacks constantes de sucesso, parece haver cada vez menos espaço para se ouvirem palavras incómodas e acertadas, onde já não há espaço para se dizer: “o teu resultado foi fraco”, para a seguir se poder dar resposta à pergunta “o que estás disposto a fazer, para alcançares outro nível de rendimento”?

Ser educador/treinador nos tempos de hoje é muito mais complicado em alguns aspetos e exige a utilização de cada vez mais ferramentas de trabalho e conhecimento por parte do treinador. Porque o “combate” com um mundo virtual e irreal leva-nos os jovens para cada vez mais longe de um trabalho exigente, prolongado e diário!