O melhor sítio para correr


O melhor sítio para correr é feito de trilhos de terra calcada por pegadas que traçaram consecutivamente a mesma trajectória. No Outono e Inverno transformam-se numa superfície mole, amaciada pelas folhas que caem das árvores decíduas. É feito de superfície dura e áspera, constituída por várias camadas horizontais compactadas até receber o último manto cinzento de alcatrão que, junto ao mar, numa mata, numa serra ou em qualquer aldeia, vila ou cidade, as nossas pernas percorrem metro a metro, quilómetro a quilómetro. É feito de uma superfície sintética de tom alaranjado ou azul, em formato elíptico, vulgarmente designada por pista.
O melhor sítio para correr tem tudo isto, tudo isto é o nosso Planeta Terra, o único que no infinito Universo reúne esta biodiversidade singular, que está a sofrer as consequências das alterações climáticas e cada um de nós tem o dever de (e pode) protegê-lo!

Ao escrever sobre alterações climáticas, o primeiro desafio é atrair a atenção do leitor para este assunto (1). Tentei colmatar essa fragilidade com um título que suscitasse o interesse particular dos corredores, porque todos nós temos um papel decisivo para inverter este problema e porque sofremos com os efeitos da poluição.

Sabemos que, apesar da sua importância, é um assunto normalmente deixado para segundo plano, ou porque não conseguimos visualizar as suas consequências ou porque somos invadidos pelo sentimento de impotência face à dimensão do problema (2). Pelo menos era nesta perspectiva que eu me revia, até perceber que na verdade é bastante simples reduzir a nossa pegada ecológica e se todos nós seguirmos o mesmo ‘rasto’ este efeito cumulativo terá um impacto enorme.

É simples visualizar algumas consequências directas do aquecimento global: 

A temperatura que tem estado entre os meses de Setembro e Dezembro* – É agradável desfrutar do sol durante um treino em Dezembro, no entanto devemos equacionar que algo não está certo. Segundo os registos da NASA, desde o ano 2000, todos os anos é batido consecutivamente o recorde da temperatura global (3). As temperaturas elevadas estão a precipitar o degelo das calotas no Pólo Norte, e os países com zona costeira (como Portugal) irão sofrer as consequências directas do aumento do nível do mar. (4) Um aumento da temperatura global em 2ºC implica a escassez de água em África e no Médio Oriente afectando entre 1 a 4 biliões de pessoas! (5)

Em cada inspiração, inspiro poluição – Independentemente de corrermos em zonas com muito ou pouco tráfego estamos a inalar dióxido de carbono (CO2) emitido pelos carros ou pelas indústrias dependentes dos combustíveis fósseis. Conseguem imaginar correr com ar puro, sem vestígios de poluição?

Como posso reduzir as emissões de CO2? 

Primeiro, assimilarmos que o problema é real.
A nossa mudança começa no dia-a-dia, em algo tão simples como não atirar lixo para o chão e reciclando.

Reduzir ou procurar alternativas ao carro – A mudança não tem que ser extrema para fazer a diferença, apenas ponderarmos se em todos os trajectos que efectuamos o carro é imprescindível ou se podemos substituir pelos transportes públicos, caminhar ou utilizar a bicicleta. Neste sentido os municípios também devem criar infraestruturas que facilitem a circulação pedonal (e do pedal). É impensável que se proceda actualmente à restruturação de vias com enfoque apenas nos carros. Caso seja financeiramente viável, os carros eléctricos são uma boa alternativa por não emitirem gases poluentes.

Alterações na nossa alimentação – Podemos procurar alimentos que trazem benefícios para o nosso corpo e ao mesmo tempo para o meio ambiente. Por exemplo, a carne de vaca para ser produzida é necessária uma área 28 vezes superior à área para produzir galinhas ou porcos. No que diz respeito à poluição, para além de emitirem metano** um estudo realizado pelos cientistas da universidade de Oxford mostra que as dietas ricas em carne, mais de 100gr por dia, resultam na emissão de 7,2kg emissões de CO2, em contraste com os vegetarianos ou dieta à base de peixe 3,8kg CO2 e uma dieta vegan apenas 2,9kg CO2. (6)

O que vestimos também conta – Devemos estar atentos às marcas que consumimos, verificar se respeitam requisitos de ética e responsabilidade social. Quando compramos umas sapatilhas para além da procura das melhores características técnicas, devíamos saber como são feitas. Nem sempre é fácil obter esta informação, contudo há marcas que a disponibilizam nos próprios sites ou existem plataformas que avaliam os procedimentos éticos. Este assunto ganha ainda mais importância se tivermos em consideração que a industria têxtil é a segunda mais poluente do mundo, logo a seguir à industria petrolífera. (7)

Em suma, existindo muito mais a acrescentar, a minha intenção é sobretudo despertar interesse para os efeitos e as consequências das alterações climáticas. Devemos informarmo-nos, adquirir consciência do que está a acontecer e acreditar que cada um de nós é importante e pode fazer a diferença – todos os dias.(8) E nós temos escolha no tipo de impacto!

Eco, not ego, Runner

Miguel Moreira


* ano de 2016

** O metano é 20 vezes mais poluente que o CO2

(1) No início do documentário Before the Flood, o actor e mensageiro da paz das Nações Unidas Leonardo DiCaprio diz justamente “se tentarmos conversar com alguém sobre alterações climáticas, as pessoas não prestam atenção”

(2) Ideia abordada no artigo “Who cares?” na revista New Philosopher por Oliver Burkeman. Para além de acrescentar o seguinte aspecto curioso: Um recente estudo em economia comportamental demostrou que a maioria das pessoas não consegue fazer sacrifícios agora para evitar perdas maiores no futuro.

(3) Artigo “The end of climate deniers”, revista New Philosopher.

(4) Acerca do degelo, a informação foi obtida no documentário “Before the Flood”.

(5) Artigo “Fleeing the climate”, revista New Philosopher.

(6) Artigo “Giving up beef reduce carbon footprint more than car”, jornal The Guardian

(7) Questão clarificada no documentário, The True Cost, sobre a industria da moda.

(8) Foi considerado o lema do programa “Roots & Shoots” que começou em 1991 com 12 alunos do secundária na Tanzania, hoje está presente em mais de 100 países. A mensagem principal é cada um de nós faz a diferença – todos os dias “every individual makes a difference – every day”. Cada grupo de alunos escolhe 3 projectos para tornar o planeta um sitio melhor: um para a comunidade humana, outro para os animais (incluindo animais domésticos) e outro para o meio ambiente. Existem cerca de 150 000 grupos espalhados pelo mundo, o impacto colectivo é enorme. São encorajados a agir, a comunicação é privilegiada e acabam por também influenciar as pessoas em seu redor, amigos e família.