Porque Ovar terá a melhor corrida de estrada em Portugal…


Longe vai o tempo em que as corridas em Portugal desempenhavam um papel verdadeiro e muito relevante no desenvolvimento da corrida de competição no nosso país. Os interesses estavam centrados na competição e todos queriam ver que corredores estavam em melhor forma, quais os talentos emergentes e quais os jovens que apontavam para um futuro de sucesso nestas distâncias. Por analogia diria que agora, deixámos de ver corridas de fórmula 1 e que passámos a assistir a provas com carros de brincar, colocados em fila, onde já sabemos quem sairá vitorioso… A competição vê muitas vezes os seus valores alterados, e já são poucos os que se preocupam com o nível competitivo dos que ainda tentam correr ao mais alto nível, a não ser… para os criticar, precisamente por falta do nível que os atletas alcançam!

Se pensarmos em provas que procuram estimular competitividade e que contribuem para que jovens acreditem que podem apostar na corrida em Portugal, vemos muito poucas, das quais destacaria principalmente duas: Meia Maratona de Ovar e São Silvestre da Amadora (neste caso com muitas dúvidas se a conseguirão manter nos moldes habituais…). 
Estas duas corridas privilegiam os corredores portugueses. Contactam os atletas de forma a potencial o nível competitivo, atribuem prémios monetários que os compense do espetáculo competitivo que vão proporcionar e os ajude a sustentabilizar uma exigente carreira desportiva, envolvem as pessoas para verem esse espetáculo que têm anualmente na linha de meta expressões de verdadeira disputa competitiva e não de corredores que só vão cumprir calendário em provas por vezes com muito de virtual em termos de espírito competitivo. Honra feita a algumas provas que ainda não têm grande expressão mas  que lutam por um crescimento sustentado nestes valores (como exemplo recente, temos a corrida de Alvelos-Barcelos).
Para que isto seja feito, é óbvio, que as provas em Portugal têm de prescindir de alguma da sua recolha de lucros obtida através de praticantes recreativos, têm de investir numa boa grelha de prémios, procurarem garantir o alto nível competitivo nas suas provas e apostarem de forma inequívoca nos atletas portugueses, queridos e conhecidos pelos apaixonados pela modalidade! Claro que a forma mais fácil de passar ao lado desta preocupação é tão simplesmente tentar fazer passar a imagem de que essa responsabilidade compete a outras entidades, como à Federação de Atletismo e não aos organizadores de corridas. Este problema diz respeito a todos nós e os estímulos à competitividade e melhoria do nível da corrida em Portugal, deve preocupar todos os que gostam da corrida! Se existem organizadores que não partilham deste gosto pela corrida e que focam a sua preocupação no lucro que a prova dá, então algo está francamente desajustado…. Ou então teremos eventos meramente recreativos e que devem ser tomados como tal pelos media e patrocinadores… 

Porque não estimulamos valores desportivos, de construção de referências e promoção dos valores de competitividade usando esses valores para chegarmos aos mais jovens e os estimularmos a se envolverem com uma pratica desportiva para toda a vida? Porque razão poderão os patrocinadores não se reverem nestes princípios e poderão não ter orgulho nos valores que as provas que apoiam defendem? Claro que se podem usar estratégias para se dizer que se investe noutras áreas, como o apoio social a instituições, apoio meritorio, mas que ajuda a apelar à responsabilidade social de patrocinadores e a mais inscrições para ajudarem esta ou aquela causa. Mas que não defendem  outros valores desportivos e contributos para o crescimento de uma realidade competitiva na corrida que também devia fazer parte destes eventos.


Acreditamos que muitos organizadores pouco conhecedores do mundo da corrida, dos atletas e do seu esforço e patrocinadores que apenas contem número de participantes, que até poderão achar interessante ver no final das suas provas um conjunto de africanos que ninguém conhece mas que permitem tempos de referencia internacional à competição. Ou, por outro lado, organizadores que procurem compensar atletas que se encontrem envolvidos com outros projetos seus, retirando competitividade às suas provas que ficam com uma espécie de vencedores antecipados. A culpa não é só dos organizadores mas também de patrocinadores que se demitem de conhecer um pouco melhor os mundos onde decidem fazer os seus investimentos publicitários.
Tendo em conta esta perspectiva se existe prova que merece ser apoiada em Portugal é a Meia Maratona de Ovar e os motivos são simples:

1. Respeito total e exemplar pelos corredores portugueses

Precisamos de organizadores que conheçam os atletas e os treinadores. Que saibam relacionar-se com as pessoas, que saibam ter palavras de estimulo, que sejam verdadeiros, genuínos e colaborantes. Não será por acaso que esta prova tem sempre um lote elevado de corredores de bom nível e uma tão significativa resposta de palavras de apreço por parte destes em relação à organização. Temos nesta prova pessoas que conhecem e vivem a corrida e que dão o melhor de si, estabelecendo relações positivas e de apoio a todos os corredores. Todos percebem que a ida a Ovar significa uma recepção calorosa para uma verdadeira festa de corrida. E aqui os melhores corredores portugueses não são um apêndice, são os verdadeiros protagonistas! 

2.  Competitividade

As fotos que ilustram muitas das vitórias desta prova, ao longo dos anos, falam por si! Na frente das corridas vemos atletas portugueses a darem o seu melhor e a lutarem até ao final por uma vitoria que todos querem. Estar na lista de vencedores desta prova é sempre motivo de orgulho, porque a organização faz questão de os realçar todos os anos. 

3. Prémios

Os prémios em Ovar ja foram mais altos no passado, mas o esforço da prova em os manter ao melhor nível do que temos em Portugal é de enaltecer. Acredito mesmo que se tiverem oportunidade e contra todas as tendências os voltarão aumentar. Porquê? Porque a organização entende a realidade dos corredores de elite em Portugal, porque se envolvem com os corredores, porque os admiram, porque organizam uma prova para os seus heróis e os tratam como tal. Esta não é uma prova oportunista, mas sim uma prova de oportunidades…. oportunidade para quem gosta da corrida tanto como eles gostam e de quem está disponível para ir a Ovar viver uma festa ímpar da corrida em Portugal.  

4. Pão de ló

O pão de ló oferecido no final desta prova é muito mais do que uma oferta gastronómica. É mais um afeto que os organizadores fazem questão de cumprir em diversos momentos (conferência de imprensa, final da prova, entrega de prémios). Mais do que um prémio é uma forma de dizerem obrigado! E agradecem com o que de melhor a cidade tem para oferecer, o mais doce, o mais tentador e mais reconhecido. Porque nesta prova as emoções contam muito.


Esperemos que os novos tempos e a comercialização das corridas em Portugal, não impeçam que outras provas deste tipo possam surgir ou crescer. Precisamos de eventos como este, porque aqui se dão oportunidades de crescimento a corredores que cada vez mais se vêem rodeados de caminhos sem alternativas. Que estes enormes exemplos sirvam de aprendizagem para outros organizadores de corridas em Portugal. A Meia Maratona de Ovar é um exemplo enorme, é uma corrida de todos nós para todos nós e tem o ideal, dentro das suas limitações, de contribuir para um crescimento da corrida verdadeiramente competitiva. 

Autores: Rui Pinto e Paulo Colaço