(RE)CONHECER


Algumas décadas atrás o mundo da corrida em Portugal, teve um forte incremento de praticantes que procuravam a sua ligação com a corrida num momento em que correr estava completamente fora de moda. Os resistentes eram criticados e ouviam comentários menos agradáveis durante os seus treinos, mas ainda assim, mantinham a sua prática e foram fazendo com que alguns eventos, como a emblemática Meia Maratona da Nazaré não parasse de crescer em número de participantes. Tínhamos praticantes que contra tudo e contra todos se empenhavam na prática regular da corrida em clubes e associações desportivas um pouco por todo o país.

Este movimento espontâneo, em grande parte alavancado por um período áureo de resultados desportivos dos melhores corredores portugueses, foi-se perdendo ao longo do tempo e em especial durante um período em que as condições económicas em Portugal melhoraram de forma significativa. Passou a fazer mais sentido para a população portuguesa usufruírem de outras atrações para ocuparem os seus tempos livres do que envolver-se com uma prática desportiva regular ou mesmo de “perderem” tempo a correr… Os números de corredores caíram visivelmente a ao contrário do que acontecia noutros países. Portugal deixou de correr.

Mais recentemente a proliferação da internet, das redes sociais e de acesso global à informação, foi mudando esta realidade nos últimos anos. Todos começaram a perceber que a saúde de cada um de nós depende e muito, do envolvimento das pessoas com uma atividade desportiva regular e a exemplo do que acontecia noutros países, os portugueses foram percebendo que a prática da corrida, poderia ser uma solução mais fácil para mudarem os seus estilos de vida, prolongarem a sua vida e viverem cada ano com a máxima qualidade possível. Acredito que esta alteração se deveu sobretudo à consciência crescente das pessoas de que a sua saúde depende muito mais do seu estilo de vida do que da ingestão de medicamentos.

Felizmente a realidade mudou. Temos muitos mais praticantes de corrida. Temos muito mais diversidade de atividades de corrida. Temos mais eventos que promovem com muita qualidade a prática da corrida. Temos mais educação e formação que levam as pessoas a aderirem à prática da corrida sem qualquer tipo de preconceitos. Temos mais envolvimento dos media com a corrida.

Curiosamente, com todo este crescimento associado à corrida, seria de esperar um maior o envolvimento das pessoas com as nossas referências desportivas da corrida, termos mais apoios para os atletas de elite e maior conhecimento e ajuda aos que arriscam tudo para se dedicarem de forma exclusiva a uma verdadeira profissionalização na corrida. Infelizmente não é isso que temos visto…

Sou particularmente sensível ao desenvolvimento de estratégias que motivem pessoas que durante anos tiveram um estilo de vida particularmente pouco saudável, a encontrarem na corrida uma oportunidade de mudarem de forma significativa o seu estilo de vida, recebendo o impacto positivo que a corrida lhes pode dar na sua saúde e bem-estar. De há muitos anos para cá que procuro motivar pessoas nestas circunstâncias a mudarem de vida e a encontrarem na corrida uma oportunidade por vezes única de o conseguirem. Contudo, confesso que é com alguma apreensão que vejo uma excessiva exaltação dos sucessos que alguns, que durante anos tiverem um estilo de vida profundamente errado, vão conseguindo nomeadamente com a participação em alguns eventos de corrida. Não que isso não deva ser referenciado, pois esses exemplos de sucesso podem ser particularmente importantes para mostrar a outros que também o podem conseguir. O que mais me preocupa é verificar que existe cada vez menos destaque para o esforço de jovens que desde muito cedo decidiram ter um estilo de vida muito particular, isento de grande excessos, com uma prática desportiva regular e que abraçam com determinação uma prática desportiva de rendimento. Deste modo, quando exaltamos o esforço “heróico” de alguém que perdeu 30kg ou 40kg de peso ou que deixou de fumar ao se iniciar na prática da corrida, não deveríamos pelo menos colocar no mesmo nível de importância, aqueles que sempre souberam preservar um estilo de vida particularmente saudável e ativo, abraçando com determinação a prática da corrida, sem vacilar perante o aparente conforto do sedentarismo? Ou será que só poderão ser exemplo os que durante anos cometeram imensas asneiras com a sua saúde? Perante isto, que exemplo estamos a dar aos jovens do presente? Que podem numa determinada fase das suas vidas optar por desvios nos seus estilos de vida e aumentarem de peso ou passarem a ser fumadores, pois lá para os 40 ou 50 anos, estarão a tempo de reverter os efeitos negativos que desenvolveram durante anos? Ou não será que deveríamos ter a responsabilidade de mostrar bons exemplos de praticantes de corrida que durante anos a fio, se envolveram diariamente com uma prática sistemática e mostrar aos mais novos que este é um cuidado que devem ter a longo termo na sua vida? Este percurso não será o melhor percurso? O melhor exemplo?

Claro que percebo, que nomeadamente para alguns órgãos de comunicação social que se começaram a interessar por um tipo muito particular de corrida, se torna mais tentador dirigirem-se a um tipo de público-alvo muito específico que lhes possa hipoteticamente garantir aumento de audiências e/ou vendas. E que essas mensagens de sucesso na inversão de estilos de vida inadequados podem funcionar muito bem junto da uma população que continua a ser maioritariamente inativa. Mas a verdade é que os verdadeiros exemplos de sucesso estão naqueles que nunca se deixaram cair na tentação de um estilo de vida sedentário, que passaram por diversas dificuldades e souberam preservar uma prática desportiva sistemática. O exemplo está também nos verdadeiros corredores, que são os que independentemente do seu nível desportivo, desenvolveram uma prática desportiva ao longo da vida. Ou será que esses não são atrativos enquanto notícia? Será que o que é relevante é apenas o corredor que de um momento para o outro se transforma de sedentário em maratonista ou ultramaratonista? Ou aqueles que optam por situações demasiado extremas e por ventura a tocarem o risco de afectarem a sua saúde? Gostava de ver mais atenção dedicada aos que desde muito jovens souberam definir um percurso assente num estilo de vida particularmente ativo e saudável. Gostava que os “verdadeiros” atletas fossem mostrados como verdadeiros exemplos para os mais jovens reforçando valores de empenho sistemático ao longo da vida. Perceber o que se ganha com a corrida quando esta faz parte da opção de um jovem é estimular os mais novos a enveredarem por um caminho semelhante de rigor e dedicação que lhes trará benefícios a longo prazo. Mesmo que para isso o jovem tenha de usar modelos competitivos na corrida para encontrar motivações que o levem a treinar de forma sistemática. Porque esta péssima ideia de vermos os praticantes de rendimento na corrida, como algo que não interessa ser seguido ou promovido equivale a dizer ao mais novos que não faz sentido dedicarmo-nos em qualquer área profissional aos mais elevados níveis de desempenho e sermos reconhecidos pelos sucessos obtidos. Porque razão ser-se praticante dedicado e de bom nível na corrida, parece ser, cada vez mais, não um exemplo a referir e a seguir mas uma espécie de “aves raras” pouco atractivas a não ser quando obtêm um grande feito internacional? Porque razão, cada vez mais me falam de projetos na corrida que colocam de parte esses atletas, como se a velocidade a que correm fosse vista como escandalosamente proibida?

Pretendo naturalmente que os praticantes recreativos continuem a ser referenciados como exemplos de sucesso, mesmo quando passaram longos anos a terem estilos de vida contrários, assim como, que todos em conjunto saibamos dar o máximo valor àqueles que desde jovens se dedicam à corrida até como modo de vida, procurando melhorar o seu desempenho desportivo e podendo servir como bandeiras de promoção de uma prática desportiva que deve ter nos seus campeões um importante alicerce. Ou será que os praticantes de corrida não devem conhecer os seus melhores, como conhecem grande parte dos melhores jogadores de futebol? Que cultura desportiva dentro da corrida temos? Defender, dar valor a apoiar os atletas de elite da corrida é reconhecer o percurso que estes tão bem souberam definir para a sua vida, e reforçar a importância da corrida num amplo contexto social, em que mais tarde ou mais cedo, todos poderão de alguma forma usufruir.

A este nível tiro o chapéu aos muitos corredores recreativos que conheço e que identificam, apoiam e enaltecem os resultados de jovens corredores e que os colocam como referências desportivas. Deste modo, contribuem para que, de alguma forma, possam sejam vistos pela sociedade, organizadores de provas e sistema desportivo português como exemplos que devem ser apoiados por quem tenha a possibilidade a cada momento de o fazer. Porque o mundo da corrida necessita disto e porque os exemplos que tenho vivido de apoio entre estas duas faces da corrida me trazem muita esperança em relação a um futuro que quero ver cada vez melhor para a corrida.