Corrida, e perda de peso


Os perigos da Blogosfera e do Facebook! A propósito de um artigo sobre exercício físico aeróbio e perda de massa gorda…

http://pedrocorreiatraining.wordpress.com/2012/09/23/evidencias-cientificas-sobre-o-exercicio-fisico-que-nao-aprendemos-na-escola-treino-aerobico/

Nota introdutória

Muitos reclamam para certas profissões a necessidade de intervir socialmente, com opinião crítica, informação credível, sugestão de soluções, num tempo em que a informação que nos chega está carregada de múltiplos fatores de enviesamento, difícil de filtrar, digerir e assimilar correta e proveitosamente.

Não é por qualquer razão em especial, mas nunca escrevi em blogs e não sou um utilizador frequente das redes sociais, de que faz parte o Facebook. Contudo, há que reconhecer que elas são, hoje, um veículo muito importante de comunicação, de formação de opiniões, de transmissão de informação. Acompanha-se o mundo por elas e o mundo dá-se a conhecer também por elas! Temos governação e presidência via Facebook. Moldam-se as opiniões e as tendências via Facebook. Preparam-se os povos para aumentos de impostos, descida de salários via Facebook. Conhecem-se negociatas ruinosas para todos nós em proveito dos “armadilhadores” e reguladores do sistema, via Facebook. A este propósito de regulação (e se a biologia é rica em regulação!!!… falaremos disto mais tarde), e como na minha opinião, a sociedade, os países, os famosos mercados, as famílias, as pequenas e grandes organizações, não se autorregulam, é necessário REGULAR, caso contrário, os resultados estão bem visíveis.

Há quem acredite, por princípio, que deve saber mais, ter mais conhecimento, estar mais informado, ler mais sobre o assunto, para dar opinião ou pronunciar-se! Pode ser por (de)formação profissional ou por prudência. “Será que estou a ver o filme todo??!!!”

Do outro lado encontram-se os que, por variadíssimos motivos, incluindo os de promoção pessoal e profissional, opinam e “dissertam” de forma menos rigorosa sobre muitos assuntos e… não é que são aplaudidos!!!!

Aqui levanta-se uma pergunta! Será que não devemos ser rigorosos, prudentes e corretos quando utilizamos estes veículos? Deveremos ser superficiais no discurso e “incliná-lo” para os nossos propósitos?

NÃO! Assim não construímos uma sociedade mais informada e com uma verdadeira opinião crítica.

Exercício aeróbio – mau para perda de massa gorda ou para a saúde? Prudência com análises superficiais!

E o ponto gatilho para este meu “desabafo” foi justamente um artigo publicado num blog que me foi proporcionado ler por intermédio de um amigo no Facebook. O título é: “Evidências científicas sobre o exercício que não aprendemos na escola – Treino aeróbico”. E tem, ainda, como sub-título: “O exercício aeróbico de intensidade moderada é a pior opção que existe para perder massa gorda”. Ora, não vou rebater, ponto por ponto, esse artigo, que foi certamente escrito com o propósito de contribuir para uma sociedade mais saudável e mais feliz por uma via das que considero mais fantásticas para o conseguir. A prática de exercício físico!

Alguns pontos:

Se vamos ao ginásio e fazemos treino funcional, musculação, o designado “cardio” no tapete, na elítica, no remo ou no cicloergómetro, aulas de grupo em bicicleta estática, se vamos correr para o monte, à beira mar, pedalar na estrada ou ciclovia, jogamos futebol, caminhamos ou fazemos outra qualquer forma de desporto ou atividade física, o importante é mesmo, e em primeiro lugar, fazer. Dar os parabéns a quem faz!

Mas será que todas estas atividades não são de longa duração (cerca de uma hora)? Será que quem as realiza não apresenta uma frequência cardíaca relativamente elevada, a qual antecipa um igualmente elevado consumo de oxigénio e que, consequentemente (em princípio), aumenta a formação de espécies reativas ditas como determinantes do envelhecimento biológico e assocadas a inúmeras patologias?

Naturalmente, para todas estas atividades, são bem vindas indicações, conselhos e recomendações no sentido de fazer melhor, respeitando alguns princípios básicos, cuidados suplementares, preservar a integridade e funcionalidade dos nossos tecidos no sentido de aumentar a sua resistência às ”agressões” que o exercício coloca.

A motivação para a prática regular deverá sustentar-se no prazer que se retira da atividade, independentemente das razões (bem estar físico, aptidão física, estética e modelação do corpo, aspetos de natureza social, profilaxia e terapêutica de doenças, entre outras). Se está motivado para fazer algo num ginásio, num estúdio, numa academia, faça! Mas se é ao ar livre, na montanha, ciclovia ou marginal que tem prazer, então deixemos fazer e não digamos que faz mal!

Ficamos sem saber se o autor tem como alvo do seu artigo convencer os leitores, alunos ou pacientes de que o exercício aeróbio de longa duração (ou a corrida em particular, quiçá apenas a realizada ao ar livre) per se não faz diminuir a massa gorda ou se é deletério para a saúde. Isto partindo do pressuposto de que essa corrida é realizada, imagino, que sem qualquer trabalho suplementar de (i) reforço muscular dirigido e global, (ii) técnica de corrida, (iii) corridas de intensidade elevada alternada com outra de intensidade menos elevada, entre outras estratégias de treino que se utilizam para nos ajudar a correr melhor, mais rápido, para sustentar os impactos e preparar os nossos tecidos moles e esquelético para a corrida. Não parece interessante a ideia exposta de que os impactos no solo decorrentes da corrida são nefastos para o sistema ósseo e articular.

Na sequência, e não querendo ser exaustivo na análise, permitam-me alguns comentários a frases ou expressões utilizadas neste artigo:

Artigo – “Pense durante uns segundos: Conhece alguém que tenha tentado fazer este tipo de treino e tenha obtido bons resultados no que diz respeito à perda de massa gorda e ganhos de massa muscular?”

Eu – Conheço sim! Eu e todos aqueles que fazem, a par da corrida, uma ingestão de calorias (provenientes ou não dos lípidos) que não exceda exageradamente o seu gasto. A acumulação de massa gorda depende, entre outros fatores, do turnover energético (relação entre a ingestão e gasto calóricos). Naturalmente, também a par da dieta, os corredores realizam (ou deverão realizar, ser aconselhados e ensinados a realizar) treino de força, reforçando grupos musculares de cadeias antagonistas, alongamento de cadeias posteriores, exercícios de capacidade propriocetiva, potência muscular, utilizando para isso os mais diferentes meios e situações. Muitos destes exercícios são realizados a intensidades relativamente elevadas, obrigando, portanto, ao recrutamento adicional de unidades motoras com características fenotípicas de contração rápida. Isto é válido, em paralelo, com o trabalho suplementar de controlo da dieta associado ao praticante de qualquer atividade no ginásio, num campo de futebol ou basquetebol. Conselhos e instruções complementares associados a posições mais corretas do ponto de vista ergonómico e/ou mais seguras na realização dos exercícios são, igualmente, e bem, preocupações do personal trainer, do monitor de musculação, de cycling ou outro. Encontram-se, desta forma, em paralelo com todos os cuidados suplementares recomendados ao corredor.

Artigo – “O treino aeróbico crónico causa maior inflamação e aumenta o stress oxidativo”, decorrendo daqui que “faz mal à saúde” uma vez que a inflamação e o stress oxidativo são mecanismos habitualmente envolvidos na etiologia e na fisiopatologia de muitas doenças.

Eu – Discordância absoluta!

Há pouco falámos em REGULAÇÃO, a propósito dos sistemas e organizações em que vivemos… Ora sabe-se, hoje em dia, que as nossas células, de todos dos tipos, possuem mecanismos moleculares de regulação muito particulares e rigorosos, alguns deles associados precisamente à inflamação e à presença de espécies reativas. Recorde-se, porque o texto deixa implícita alguma confusão conceptual, que algumas células inflamatórias são, efetivamente responsáveis pela produção de espécies reativas, mas não são, de todo, as únicas fontes celulares destas espécies no organismo durante o exercício. Quem sabe até, nem serão a mais preponderante fonte/mecanismo celular durante a corrida de longa duração!!! Provavelmente não!

É certo que a quantidade de espécies reativas aumenta (por ação de muitas fontes envolvidas para além de algumas células do sistema imunitário) durante o exercício de longa duração. Também aumenta (embora com preponderância de outras fontes distintas) durante e após o treino intervalado, de alta intensidade e do típico treino de força. Acontece que são precisamente essas espécies reativas que, juntamente com outras moléculas, são responsáveis por aquilo que se designa por sinalização celular. Estes mecanismos, por sua vez, são essenciais para a estimulação da síntese de antioxidantes endógenos indutíveis/moduláveis (aqueles que o nosso próprio organismo, as nossas células sintetizam, que podem ser enzimáticos como a superóxido dismutase, a catalase, peroxidases, redutases e muitas outras, ou não enzimáticos dos quais podemos destacar a glutationa, ou glutatião, no seu estado reduzido). Todos estes sistemas são altamente interdependentes e dependentes de outras moléculas, algumas provenientes da dieta. Estou a lembrar-me dos mais clássicos como as vitaminas C e E e o selénio, por exemplo. Do NADPH, que deriva, imagine-se, do metabolismo dos hidratos de carbono (ciclo das pentoses e da ação da isocitrato desidrognase extramitocondrial). Ou seja, independentemente da complexidade e da interação destes e de outros sistemas biológicos, basicamente, e de uma forma simples, os próprios “radicais” funcionam como moléculas sinalizadoras celulares para a síntese de antioxidantes. Estes (antioxidantes), eram inicialmente considerados como “apenas” os bons da fita devido à sua ação nas determinante células para neutralizar o stress oxidativo adicional e excessivo, sendo inclusivamente utilizados do ponto de vista comercial para a promoção de inúmeros produtos. Contudo, em concentrações excessivas, poderão (alguns deles) ter uma ação tóxica ou impeditiva da adaptação celular. Isto acontece, por exemplo nos nossos músculos, em resposta ao exercício das mais variadas formas.

Em suma, necessitamos dos radicais livres e de outras espécies reativas, de oxigénio e nitrogénio, bem como da inflamação, em concentrações obviamente moderadas e capazes de serem toleradas e neutralizadas, para que as nossas células se adaptem para níveis superiores e, nesta lógica, se encontrem mais preparadas. No fundo, para que elas “regulem” a adaptação! Se pensarmos nos nossos músculos, eles necessitam dos radicais para desenvolverem a sua bateria antioxidante. Necessitam da inflamação para que a capacidade anti-inflamatória se sobre-regule e para que a reparação dos tecidos durante a recuperação seja mais rápida e eficaz!

Por último, o argumento de que o EPOC (excess post exercise oxygen consumption – consumo de oxigénio acima do valor de repouso após o final do exercício), para justificar o exercício de elevada intensidade em oposição ao de baixa intensidade para diminuir a massa gorda, com base no aumento do dispêndio energético pós-exercício mais elevado. As questões que coloco, e tentando centrar-me nos argumentos do autor, são: (i) e esse aumento do consumo de oxigénio não vai estar associado à continuação da produção de espécies reativas após o final do exercício? E essas espécies reativas, o stress oxidativo e nitrosilativo adicionais decorrentes, já não vão ter implicações no acelerar do envelhecimento biológico e na susceptibilidade acrescida do sujeito à doença?

Bom, a minha intenção com esta posição é de dar o meu contributo para alertar leitores e frequentadores destes veículos de comunicação para a necessidade de posição crítica, implicitamente construtiva, relativamente ao que circula.

Façam todos exercício físico