Correr mais vs melhor


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Correr melhor, nos mais diferenciados níveis de rendimento, está muito dependente de fatores muito diversificados e que frequentemente pouco têm a ver com a corrida propriamente dita. É muito frequente assistirmos a corredores que procuram encontrar no crescimento de volumes de corrida a solução para melhorar a sua prestação na corrida. Se assim fosse, seria demasiado fácil…

Numa primeira análise, para melhorar a corrida, cada corredor tem de melhorar a sua capacidade de fazer deslocar o peso do seu corpo entre cada apoio. Para além disto e mediante a duração e distância de um determinado evento de corrida, a verdade é que o corredor ainda deverá desenvolver uma aptidão elevada de manter essa capacidade ao longo de todo o percurso de corrida.

Na verdade, estamos a falar de força muscular e não de resistência aeróbia! Por isso mesmo, defendemos que numa fase inicial será mais importante a melhoria dos níveis de força que permitam maior facilidade na deslocação do meu corpo. Mais do que propriamente procurar o aumento de volumes de treino de corrida, esperando melhorias aeróbias que me permitam correr melhor. Falamos deste modo, mais  de aspetos qualitativos do treino do corredor, do que, de aspetos quantitativos, muito frequentemente traduzidos num somatório desmedido de quilometragem!

O surgimento da ideia de que tudo o que é extremo é que é bom, tem-nos levado ao surgimento de um novo tipo de corredores que pouco ou nada se preocupam com os aspetos qualitativos e em que a única relevância passa por traduzir as suas preocupações com o treino numa capacidade cada vez maior de acumular mais quilómetros de corrida. Por vezes, generaliza-se mesmo a ideia de que os praticantes de eventos extremos é que serão os verdadeiros atletas, pelos volumes de treino a que são sujeitos.

Na verdade, a grande parte dos praticantes de ultra-maratonas ou provas “extremas” são os praticantes menos completos, mais pobres em termos de capacidades físicas e com níveis de prestação na corrida mais baixos. Conseguem contudo, sujeitarem-se a corridas muito prolongadas no tempo, a velocidades que quase se confundem com a marcha, fazendo com que a sua corrida “sobreviva” de uma capacidade prolongada de sofrimento em situações de fadiga, por vezes extrema.

Revemo-nos muito mais numa corrida centrada na diversidade de estímulos, na compreensão da muita variedade de treino que deverá ser realizado e na aposta numa qualidade em detrimento do simplesmente correr sem parar…

Atualmente, parece que estamos concentrados no desenvolvimento de uma nova classe de corredores que são mais lentos do que nunca e que pouca preocupação terão em diversificarem o seu treino, desde que desenvolvam a capacidade de manterem a prática da corrida, como se estivessem a preparar-se para bater um record de quilometragem do guinness.

A verdade é que esta forma de estar na corrida, tem vindo a aumentar, o que muitas vezes faz com que praticantes de idades ainda muito jovens adoptem uma prática da corrida suportada na quantidade em vez da qualidade. O que nos preocupa é verificar que corredores que poderiam adotar um treino muito diversificado, repleto de estímulos musculares de grande importância, se limitem a um tipo de treino suportado apenas num estímulo continuado de fibras de contracção lenta, com tempos de apoio muito elevados, com uma postura agravada e pouco eficiente, com níveis de força crescentemente reduzidos e com muito maior probabilidade na incidência de lesões.

Vejo a participação nas provas ditas “ultra” como um eventual ponto de chegada de um processo que deveria começar por distâncias bem mais curtas. Porque razão haverá um praticante com poucas semanas ou meses de treino, de se envolver com uma Maratona, se não participou ainda num bom conjunto de eventos de 5kms, de 10kms ou de Meia Maratona? Porque não será mais racional, começar por distâncias mais curtas e perder algum tempo na melhoria de tempos nessas distâncias, antes de passar para distâncias superiores? Para nós a resposta parece demasiado evidente… Na verdade, quem começa por distâncias mais baixas, terá a oportunidade de melhorar e de se preocupar com fatores qualitativos muito relevantes: melhorar a técnica de corrida, alterar alguns parâmetros mecânicos da corrida como o tempo de apoio, melhorar a eficiência da força aplicada no solo, garantir a adoção de boas posturas na corrida, ou mesmo, de melhorar a sua capacidade propriocetiva. Neste caso a diversidade e qualidade dos conteúdos de treino deverá ser prioritário! O aumento nas distâncias competitivas, deveria ser feito procurando garantir que de forma progressiva, se conseguem manter estes parâmetros qualitativos evitando um treino baseado em maus parâmetros mecânicos, em má atitude técnica e postural, ou até mesmo em maior incidência de lesões.

É assustador o número de praticantes de corrida que nos abordam diariamente, para resolverem problemas, que advêm de más opções ao nível da abordagem “competitiva” e de treino. Praticantes que envolvidos na febre de que fazer mais é melhor, se vêem envolvidos com lesões de difícil resolução, com problemas de saúde associados a volumes completamente desajustados para o perfil de vida que têm e da ausência de descanso que não conseguem ter em virtude da sua vida pessoal e profissional.

Não somos melhores porque corremos de madrugada ou de noite, não somos melhores porque fazemos volumes que nem os praticantes de élite da corrida fazem e não somos seguramente melhores se tivermos práticas desajustadas que podem penalizar a nossa saúde.

A inteligência em detrimento da exigência deveria ser o fator orientador de uma prática da corrida saudável e capaz de melhorar de forma equilibrada e progressiva o rendimento na corrida. E para isso, a diversidade de estímulos de treino, devidamente orientados por quem sabe, permitirá que os benefícios ultrapassem a própria corrida e se estendam ao dia-a-dia de cada praticante. Porque o grande desafio do corredor, antes de uma “ultra-atividade” é de conseguir definir um modelo de treino que lhe traga saúde, bem-estar e uma capacidade física que lhe dê benefícios para uma vida a longo prazo e que só será conseguido se formos muito para além dos quilómetros somados na estrada…